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Sobre orlas e cajus (mais um texto picotado)

Salvador

Quando a cidade de Salvador e o seu mercado de imóveis decidiram que o vetor de desenvolvimento em faixa de orla estaria entre Amaralina e Itapuã, deflagrou um tiro no pé. De canhão.

Pior ainda, a partir da segunda metade do século XX, dirigiu o processo de industrialização com posterior crescimento descontrolado para o sentido da sua mais preciosa jóia, a Baía de Todos os Santos. A segunda maior do mundo e uma das mais belas geografias das que tenho conhecimento.

Fato é que o erro respondeu a uma leitura higienista, baseada especialmente no condicionamento favorecido pelo sol nascente e pela farta ventilação sudeste. Mas, francamente, os meninos não dormem mais sem ar-condicionado. E nem estudam, nem se deslocam.

Do vento e do sol, sobrou o sal.

E certamente a economia energética é bastante descompensada pela destruição de bens, pelo alto custo de manutenção das edificações e equipamentos.

Sempre que olho pra minha cidade, lamento o mal aproveitamento da Baia de Todos os Santos e penso que a Orla Atlântica deveria ser dos pequenos empreendimentos horizontais e das chácaras de fins de semana.

Bom, não adianta chorar sobre a ocupação esparramada.

Agora temos que pensar na pressão das ocupações sobre o meio público urbano. As nossas vias e nossa orla estão constrangidas demais, precisam se sacudir e expandir, custe o que custar, atropelando as ocupações, desfigurando, desapropriando, engolindo esta cidade equivocada e remodelando a nossa vida citadina.

Aracaju

Estou agora em Aracaju, onde o vento é farto; mais de frescor e menos de sal. A orla é ampla, com alta qualidade urbanística. Um baile em Salvador.

Os equipamentos duram e irão durar mais que os de lá, onde a umidade e o sal destroem vorazmente o que encontram por alguns quilômetros, continente adentro.

Longe da praia, vias bem estruturadas, bons parques e cajus. Um morador me disse que, quando é época, leva a família toda ao Parque dos Cajueiros e se fartam de cajus. O parque é belíssmo e bem integrado à cidade. Para a ciclovia que o contorna, em um passeio estreito, a solução foi um deck elevado sobre a vegetação. Atrevido e bem resolvido.

Aqui em Aracaju não existem loteamentos fechados. A moça da prefeitura chegou a pensar que eu não sabia nada sobre o que estava falando quando perguntei sobre como lidavam com isso: “condomínio é condomínio; loteamento é loteamento! Como é que alguém vai fechar um loteamento? Um empreendedor aqui até tentou, mas não dá , né?”.

A cidade tem seus equívocos. As orlas ribeirinhas com acesso muito restrito. Os parâmetros urbanísticos são um prato cheio para a desfiguração da paisagem urbana. Mas, segue num caminho franco e honesto de uma grande cidade, com qualidade de vida muito boa.

Administradores públicos de Salvador devem se envergonhar quando chegam em Aracaju. E nem cabe a desculpa do sal, que corrói menos do que a forma como deixamos o interesse privado sobrepujar a lógica do bem viver em sociedade.

Honestamente, não acredito na orla do sal. Infelizmente, acho que tudo que está por vir nas margens atlânticas, deve durar no máximo 20 anos até assumir a cara da degradação. É o ciclo do primeiro estágio das novas famílias. O prazo da transferência de uma família do primeiro para o segundo endereço. E aí, todos procurarão outro campo nutrido, com essa nossa mentalidade de gafanhotos.

Salvador quase não tem mais cajus.

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